Há aqueles que passam despercebidos por entre o caos da
existência.
Na multidão, não se destacam — como sombras ínfimas em meio aos nossos
problemas rotineiros.
Em uma sala cheia de amigos, ele é aquele que não se conecta, não se aprofunda,
não floresce.
Se apequena em meio às conversas e sorrisos,
sem saber o que fazer,
sem saber como fazer,
sem saber por que fazer.
Diante de tantas incertezas,
ele se flagela.
E sabe muito bem como fazer isso.
Entorpece-se de pensamentos e cobranças, culpando-se por ser o que é,
buscando entender, na obscuridade dos seus medos,
os motivos, as razões, as desculpas.
Mas não encontra. Nunca.
Jamais.
E, diante da ausência de
respostas, um turbilhão de traumas surge —
tornando-o cada vez mais temeroso diante da vida.
Com a tempestade constante,
com a escuridão ofuscando a visão,
com a frieza da vida corroendo os poucos sorrisos que ainda restam,
pensamentos vis emergem:
Por que continuar?
Por que permanecer num mundo onde não me encaixo?
Por que não desistir?
A tristeza se crava como um
prego —
e a sociedade sabe muito bem manejar o martelo.
Viver, que já era difícil, torna-se insuportável.
Ilhados. Solitários. Abandonados.
Descartados.
Para muitos, esse momento
da vida é um peso impossível de suportar.
E, como resposta, resolvem deixar de existir.
Porém, a grande ironia
desse cenário, visualmente sombrio e intimamente desesperador,
é que essas pessoas não se encaixam, não
por serem peças defeituosas,
mas porque o quebra-cabeça está montado
errado.
E, mesmo assim, punem-se.
Quando, na verdade, deveriam se orgulhar
da própria forma.
Essa lacuna.
Esse vazio.
Esse abismo que sentem —
é, na verdade, o desejo de liberdade.
É o grito desesperado de
uma alma que recusa ser só mais uma.
É o aviso do intelecto dizendo:
“Não abandone sua essência.”
A exclusão ensina, desde
cedo, a observar.
E, por isso, essas pessoas percebem a penúria de pensamentos ao redor.
Conversas superficiais. Rasas. Tolas. Repetitivas.
Sempre mais do mesmo, de quem é menos.
Mas ao romper essa
barreira, as luzes da libertação surgem timidamente na neblina.
E o que antes era solidão, torna-se solitude.
Não à toa, grandes
artistas, cientistas, filósofos compartilham esse perfil antissocial.
O afastamento dos que nada acrescentam não é um mal a ser combatido,
mas uma dádiva a ser abraçada.
E então, verão: a tristeza transforma-se num desejo intenso de mudança.
Caso você, querido leitor, esteja enfrentando esse
caminho tão árduo,
saiba que não está só.
Há outros percorrendo o mesmo percalço.
Alguns vão desistir.
Outros resistirão.
E se tornarão grandes —
para o mundo, ou apenas para si mesmos.
Não posso pegar na sua mão.
Essa jornada é só sua.
Mas espero te encontrar na
linha de chegada.
Você estará lá?
— Renan Medeiros